terça-feira, 26 de junho de 2012

Pentimentos... ( Por Contardo Calligaris )

“ PENTIMENTO “ É a palavra italiana para arrependimento, mas designa ( em muitas línguas ) uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro. Às vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão. Outras vezes, os raios-X dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados. Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que mesmo assim, integram a nossa história. Pensei nisso assistindo a “ UM DIA “ Filme de Lone Scherfig, que estreou na sexta passada. O filme é a adaptação do romance homônimo de David Nicholls (Intrínseca). O livro e o filme (cujo roteiro é do próprio Nicholls) contam a história de Emma E Dexter, que são unidos pelos pentimentos: Cada um deles é o grande pentimento do outro – Ou seja: Ao longo dos anos, cada um é para o outro a lembrança de que outro destino teria sido possível... ( REFLEXÕES )... 1- Nossas vidas são abarrotadas de caminhos que deixamos de pegar; são todos pentimentos . mais ou menos encobertos: Histórias que não se realizaram. Porque não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou coragem: Não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que quase sempre desistimos dos desejos, paixões e sonhos, porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: Por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo... Emma e Dexter, por exemplo, ficam cada um como pentimento do outro porque nenhum dos dois consegue renunciar à sua insegurança ( Que aliás, o que os torna tão tocantes e parecidos com a gente ) Ela morrendo de medo de ser rejeitada, e ele sedento de aprovação, fama e sucesso. 2 – O problema dos pentimentos é que as vezes eles esvaziam a vida que temos . O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha “ certa “. Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Emma e Dexter por exemplo, são condenados a fracassos amorosos pela própria importância de seu pentimento. 3 – Nem sempre os pentimentos são bons conselheiros – Até porque às vezes, eles são falsos ( Esse obviamente não é o caso de Emma e Dexter ) Hoje é fácil esbarrar em espectros do passado: As redes sociais proporcionam reencontros improváveis e com isso, criam pentimentos artificiais. Graças às redes, uma história que foi realmente apagada da memória ( Não apenas encoberta ) pode renascer como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado. No reencontro , um namorico da adolescência, insignificante e esquecido, transforma-se em ( falso ) pentimento. Ou seja: Numa aventura que poderia ter aberto para nós as portas do paraiso ( Onde ainda estáriamos agora, se tivéssemos ousado trilhar esse caminho. Quando examino as fotos de minha turma de colégio, sempre fico com a impressão de que deixei amizades e amores inacabados ou nem começados, mas que teriam revolucionado o meu futuro. É como se me perguntasse: “ Quem era a minha Emma? Para quem eu seria o Dexter?. Fantasiando pentimentos de relações que nunca existiram. Somos perigosamente nostálgicos de escolhas passadas alternativas, que teriam nos levado a um presente diferente. Se essas escolhas não existiram, somos capazes de inventá-las e de vive-las como petimentos. AVISOS: Os pentimentos não são necessariamente recíprocos, e os falsos pentimentos , e os falsos petimentos revisitados são uma receita para o desastre!... Extraido do texto de Contardo Calligaris. Cronista da Folha de São paulo 08/12/2011...

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