O demasiado humano...
O homem é o criador dos seus valores, seus sentimentos. Mas geralmente esquece o significado da sua própria criação, e acaba vendo neles algo de transcendente, de eterno e verdadeiro. Porém esses valores e sentimentos não são mais do que desejos simples. Humano, demasiado humano. ( Nietzsche )
Assim como a verdade e a mentira, o amor ou o ódio. O homem vive de sua indiferença e dissimulação pelo preceitos verdadeiros de seus valores e sentimentos. Seres humanos se buscam nas verdades que lhes convém e sentem-se impelidos as falsas sensações de controle sobre seus atos, podendo assim criarem realidades controversas, distorcendo notoriedades certas, autenticando as mentiras possíveis. As formas lúdicas com as quais convivemos com o real, se perdem nas mentiras que nos acalentam a alma. É fácil ao errar culparmos o fato da humanidade imperfeita, da pressão psicológica, da fraqueza de caráter e a falta de conhecimento. Mas ao largo que nossas mentiras tornam-se as verdades que queremos crer, assumimos novamente a autoridade de criadores, nossa vã necessidade de brincarmos de Deus! O paralelo entre o homem e seus deuses ou entidades divinas, é a vontade do primeiro ter poder sobre todas as coisas, e os mistérios que os segundos exercem ao se mostrarem superiores.
Criar realidades difusas que sempre se confundem com o consciente coletivo é prática hábil do ardil humano. Não há no mundo um ser sequer que não vive de um sonho, não tenha acreditado em uma mentira própria a qual criou para agir como bálsamo para as frustrações ou analgésico para as dores da alma. Esse perfil do caráter humano de sempre se justificar em ilusões as realidades vividas ou não, misturada sua sede de poder e pretensão de ser detentor do direito de pensar, é o que faz com que acabe cometendo o ato patético que querer ter um poder qual nunca obstante lhe pertenceu.
" Olhe para o alto, quando aspirar por elevação. Eu olho para baixo, porque estou elevado. Quem de vós pode ao mesmo tempo rir e estar elevado?... Somente aquele que galga as mais altas montanhas ri de todas as tragédias lúdicas e de todas as tragédias sérias... " ( Friedrich Nietzsche )
Sou um velho e apaixonado pela vida! Nunca fui chefe Escoteiro, nem tive pretensão de ser santo, ou eclesiástico. Velho, não pelos poucos mais de quatro décadas de existência física, e apaixonado (sempre) pela alma humana. Por um instante pensei que, às vezes, por economizarmos palavras, poderemos fazer com que o outro nos faça uma interpretação fanhosa do que realmente queremos dizer com nossas curtas frases. Imagine se eu tivesse deixado de me envolver pelo caminho com pessoas que encontrei, se as tivesse ignorado após breves momentos vividos e convividos, após ouvir o teor de suas respostas? Eu teria perdido uma rara oportunidade de conhecer algumas almas amigas e superiores a minha. Saber que isso só foi possível porque houve um encontro, seja ele de corpos, olhares, almas, palavras. Mas tudo na vida acontece de um encontro.
Citei o escotismo pelo fato de há muito tempo ter ouvido um relato surpreendente e caloroso sobre um fato ocorrido: O criador do movimento escoteiro, Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, um militar britânico acostumado com excursões militares de exploração, ao visitar, na África, uma tribo selvagem tida como canibal e extremamente violenta, surpreendeu seus superiores com o seguinte gesto: - Ao se defrontarem, Baden-Powell e o Chefe da Tribo, ambos se olharam fixamente nos olhos, estavam a pouco mais de 10 metros de distância. Após este instante o Chefe Índio, com a mão esquerda, deitou o seu escudo no chão e pousou a sua lança sobre o mesmo. Como num gesto automático, simultaneamente (Baden-Powell) deitou seu rifle no chão e sobre ele os dois cinturões repletos de munição. Sem darem uma só palavra, cada um caminhou na direção do outro. Na distância de pouco mais de 1 metro, ambos esticaram a mão esquerda e apertaram as mãos. Foram amigos o resto de suas vidas...
A história do ato desses dois homens sem querer acabou me fazendo refletir sobre coisas um pouco esquecidas, e me trouxe de volta a certeza de que mesmo quando mais estamos e somos decepcionados, machucados ou magoados pelos percalços do caminho, não devemos nunca desistir de continuar em frente, porque por mais que a estrada seja longa e de difícil caminhada, doravante podemos encontrar pessoas nessa jornada que nos façam ver que a vida é extremamente surpreendente, e que existem pessoas que conseguem nos mostrar que vale a pena acreditar sempre! Que aquele que imaginamos poder ser o algoz que nos trará sofrimento é um grande candidato a mestre em nos ensinar superação, e nos mostrar como grande pode ser o homem ao ter a verdadeira dimensão do seu tamanho. E que a mesma mão que acaricia, fere, pune e mata!.
Descobrir que somos suscetíveis aos desmazelos da nossa realidade, não nos dá permissão para fazermos com que os outros tenham que crer nas nossas mentiras. É preciso entender que somos do tamanho do nosso conhecimento, dos nossos atos, da capacidade que temos em transformar sonhos e ideias em realidade. Não nos medimos pelo tamanho da altura, o saldo da conta corrente, ou pelas mentiras que insistentemente contamos, até que se tornem verdades para nós mesmos.
Espero que o mundo mude, e que a situação melhore, mas o que mais quero é que você entenda, quando digo que ainda que eu não te conheça, apesar de talvez jamais encontrar você, rir com você, chorar com você ou beijar você, eu te amo de todo coração, eu te amo... (V De Vendeta )
Não sou um homem de teologia, mas tenho fé!
Não sou um homem de posses, mas possuo caráter!
Não sou homem de poder, mas tenho sede de conhecimento!
Não sou homem de força bruta, eu guerreio com a alma!
Não vivo em palacetes, mas meu espirito é elevado!
Não me apego a aparências, eu vivo de verdades!
Não tenho medo de mostrar quem sou, porque eu existo na realidade em que vivo!
Não tenho medo de errar, porque nunca quis ser Deus!
" Nada torna a vida mais interessante tanto quanto a descoberta de nossa própria complexidade..."
" Não há alma tão fraca que não possa, sendo bem orientada, adquirir poder absoluto sobre as suas paixões"... " (René Descartes )
Celso Leal.
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